MÃES DA DOR
9 11 2009Matéria sobre as mães que perderam seus filhos em maio de 2006, nos “supostos” ataques do PCC…
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Tags: ataques do PCC, mães de maio, segurança pública
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TERRA DO FOGO*
28 10 2009
Patrimônio da Amazônia é queimado, destruído e saqueado por estrangeiros. Até quando a floresta aguentará?
A Amazônia, maior floresta tropical do mundo, está acabando. São mais de 800 mil quilômetros quadrados devastados e, a cada ano, perdemos o equivalente a duas vezes o tamanho da cidade de São Paulo para as queimadas. Até 2005, 10 espécies de animais já estavam extintas e mais 342 ameaçadas de sumir. O relatório GEO Amazônia, divulgado em fevereiro pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), coloca o Brasil em posição vergonhosa ao traçar o descaso com que a floresta vem sendo tratada. Ocupamos o quarto lugar em emissão de gases de efeito estufa do planeta: 500 milhões de toneladas de carbono são lançadas, anualmente, na atmosfera em decorrência do corte e das queimadas na floresta amazônica, o que contribui para o aquecimento global. Um outro estudo, da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), mostrou que 42% de todo o desmatamento ocorrido no mundo entre 2000 e 2005 aconteceu no Brasil. Mas se o Governo brasileiro e a sociedade não se dão conta da riqueza que a Amazônia abriga, o resto do mundo dá. E tem tentado “internacionalizar” o que é nosso ao roubar plantas, animais e até o conhecimento dos índios. No ano passado, o famoso biólogo e pesquisador alemão Heiko Bleher e a fotógrafa Natalva Kardina, do Uzbequistão, foram presos por agentes federais quando tentavam embarcar para os Estados Unidos levando várias espécies de peixes sem a devida autorização do Ibama, o que configura biopirataria. Há décadas ambientalistas e pesquisadores lutam para que a Amazônia deixe de ser terra de ninguém. Mas a verdade é que missionários, madeireiros e fazendeiros ainda queimam desordenadamente sem precisar responder à Justiças. O coordenador da Campanha da Amazônia do Greenpeace, Marcio Astrini alerta para o mais grave: “O volume de dinheiro que o Governo investe em desmatamento através de formas de créditos para fazendeiros é muito maior do que o dinheiro que investe na recuperação da floresta.” Segundo Astrini, cerca de 80% das áreas desmatadas estão relacionadas à pecuária. “São terras sem registro, o Governo não sabe de quem são, não se paga imposto sobre isso”, aponta. “Hoje, calculamos o desmatamento pelo preço dos produtos produzidos lá. Se a cotação deles aumenta, há mais desmatamento. A Amazônia está nas mãos do mercado, e precisamos mudar isso. Com o uso responsável das terras daria para dobrar a produção de alimentos do País. O Governo precisa tomar conta”, cobra. Mas a floresta tem salvação? Os especialistas se dividem. Cientistas preveem que o aquecimento global deve destruir 85% da Amazônia em apenas um século e, pelas contas de economistas, com R$ 17 bilhões ao ano – pouco mais que o custo anual do Bolsa Família – salvaríamos nosso tesouro verde em 20 anos. Luis Alberto Oliveros, coordenador de Meio Ambiente da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica, lembra da importância da cooperação internacional. “A Amazônia não é só Brasil. Ela é uma unidade natural que precisa de um nível de gestão coordenada entre os oito países que a compartilham”, afirma. Quem vive lá, como o fotógrafo Pedro Martinelli não tem boas esperanças: “Enquanto o pessoal não botar o pé no mato para ver de perto o que está acontecendo, não vai ter jeito”, lamenta. Mas em um ponto todos concordam: já passou da hora de agir.
* Essa matéria está gigante, então vou publicando aos poucos! A seguir: entrevista com Pedro Martinelli, biopirataria e um cenário sombrio
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Tags: amazonia, amazonia devastada, desmatamento, fogo, queimadas
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SEM MEDO DE BATER
27 10 2009
Aos 33 anos de idade, a sérvia Duda Yankovich já viveu quatro guerras, é faixa preta em karatê e kick boxing, quatro vezes campeã de Kickboxing na Sérvia, três vezes campeã brasileira, formada pela escola de segurança internacional 007, fez filmes e comerciais de TV e já foi guarda-costas e segurança de boates em Belgrado. Há dez anos no Brasil, é campeã mundial de boxe profissional e sempre levanta a bandeira verde e amarela em suas vitórias. Figura polêmica por falar o que pensa e nocautear as adversárias de unhas pintadas e saia no ringue, Duda só vê uma explicação para tudo isso: “Nunca lidei bem com o ‘você não pode fazer isso”.
1. Você era uma criança invocada?
Eu sempre fui muito moleca. Mas não era encrenqueira. Sempre me envolvi com várias lutas – karatê, Kickboxing, Boxe. Mas na verdade eu sempre busquei esportes diferentes. Eu nunca pude ouvir “você não pode fazer isso”. No meu país, se você é mulher, nasce para procriar, cuidar da casa, do marido. Mas quando eu tinha 10 anos de idade eu já sabia que não iria viver aquela vida. Comecei a treinar karatê e com 15 eu fui para a capital treinar pela seleção.
2. E como se sustentou?
Fui contratada pela seleção de karatê, mas não me bancavam. Eu trabalhei em banca de jornal até que entrei em uma escola de segurança, onde tinha treinamento de tiro, judô, mas a aula mais importante era a de comportamento. Lutar boxe é muito difícil. Não é briga de rua. Briga de rua é instinto. Se o carro passa por cima do filho da mulher, com a descarga de adrenalina ela levanta o carro e mata três caras de uma vez. Isso é instinto. Luta de boxe é uma coisa totalmente diferente.
3. Como você veio parar aqui?
Eu já tinha deixado o karatê, em que era faixa preta, por uma decepção com o esporte e fui para o Kickboxing. Em 1999 começou a guerra da Organização tratado do Atlântico Norte (OTAN, que invadiu a antiga Iugoslávia sob pretexto humanitário) uma das quatro que eu vivi. Essa foi bem prejudicial porque a gente não treinava mais, as academias viraram esconderijos. Eu sempre me perguntei como os iraquianos nasciam e viviam a vida toda no meio de uma guerra, mas eles não conhecem outra vida. Você se acostuma. Tem filas para comer, para comprar, não sabe se vai para o esconderijo, não se sabe quando tudo aquilo vai terminar.
4. E nessa época você morava sozinha?
Sim, desde os 15 anos. Quando a guerra acabou, durante um ano não aconteceu nada na minha vida. Porque o país estava em recuperação, não tinha dinheiro para nada, esportes e artes foram apagados. Para mim restaram duas opções: ou casar, ter filhos e continuar lá ou arrumar as malas e vir embora. Eu já tinha vindo para o Brasil competir e conheci umas pessoas. Aí vim fazer alguns contatos, não pretendia ficar. Estou aqui há 10 anos.
5. Você fala muito bem o português.
Isso porque eu sou loira, hein? Eu aprendi sozinha, logo nos primeiros meses. Aí comecei a treinar e dar aulas de Kickboxing. Resolvi competir e fui bicampeã brasileira, campeã Panamericana e Sulamericana. Mas faltavam mulheres. Aí fui chamada para lutar boxe em um programa de televisão. Quando eu cheguei lá, não acreditei no tanto de mulheres que existiam no boxe. Eu ganhei, mas foi na raça. Aí eu pedi para ser treinada pela seleção masculina de boxe e me profissionalizei, disputei os mundiais e ganhei, sempre pelo Brasil.
6. E é difícil esse caminho?
Para a mulher é mais fácil do que para o homem. Até pela quantidade de boxeadores. Mas você tem que fazer as coisas certas, ir aos poucos, se fazer conhecido.
7. Mas você é a primeira boxeadora a ser reconhecida pelo o público leigo no Brasil…
Sim. E algumas pessoas dizem que eu ganho lutas porque visto uma saia. Aí eu digo “é isso aí, eu pinto as unhas, entro no ringue e a outra pessoa cai”.
8. As meninas que estão começando são muito enganadas por empresários?
Sim, é só o que acontece. Por isso que não tem lutas, por isso o esporte não tem divulgação. Já vi uma ótima boxeadora, porém inexperiente, quase aceitar lutar por R$ 500, correndo o risco de ser nocauteada. Eu a convenci a não assinar e pagaram mais. Já vi um colega desenhar o nome no contrato por que não sabia ler ou escrever. É difícil para mim inclusive. Me criticaram quando eu coloquei a bandeira da Sérvia depois de uma luta, mas nesse dia meu avô havia falecido e eu fiz uma homenagem. Desde o primeiro dia que eu pisei nesse País eu defendo a bandeira do Brasil. Eu não sou naturalizada ainda, depois de dez anos, mas eu defendo a bandeira brasileira. Eu tinha plano de saúde, tinha patrocínio e nesse momento não tenho nada disso. Mas vou ganhar tudo de novo.
9. Mas o teu ex-empresário te tirou tudo?
As besteiras que ele fez trouxeram consequências. Sabe por que as pessoas morrem no boxe aqui na América Latina? Porque quando um boxeador é nocauteado, é proibido de lutar por seis meses a um ano. Só que o atleta ganha R$ 300, com filho, família. Ele falsifica o atestado médico para fazer outra luta e ganhar mais R$ 400. Aí vai lutando, uma atrás da outra, e morre no ringue.
10. A inclusão do boxe feminino na Olimpíada deve mudar alguma coisa?
Demorou, né? Já tinha feminino de karatê, judô. Acho que melhora, mas vai demorar. Eu aposto em algumas meninas, se alguém investir nelas. Se pagar supletivo, mandar para lutar lá fora, para intercâmbios. Eu dou meu braço pela qualidade, pelo trabalho, pela técnica. Mas, se não houver investimento, nem adianta cobrar.
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NOVA CHANCE
19 10 2009
Uma pequena amostra do que são as penas alternativas no país. Teria muito mais pano pra manga mas infelizmente o espaço é pouco. Baixe o pdf AQUI
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PRECOCES NOS EXCESSOS
14 10 2009
Matéria sobre a importância da amamentação, dados alarmantes do Ministério da Saúde e dicas às futura mamães! Leiam, guardem, repassem. É tudo nosso.
Baixe aqui o PDF: 910-Amamentação
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Tags: alimentação saudável, amamentação, bebês
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PAPÉIS INVERTIDOS
21 08 2009BAIXE AQUI o PDF da matéria papéis invertidos, que falam sobre pais que viram filhos de seus próprios filhos…
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Tags: filhos, pais, relacionamentos
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MÃES DA FEBEM
17 06 2009Reportagem sobre as meninas grávidas ou com bebês internas na FEBEM. Leiam e comentem!
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Tags: febem, mães da febem, unidade feminina da febem
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PUNIÇÃO NA PELE
29 04 2009Essa foi uma matéria que gostei muito de fazer. Ainda mais porque tive retorno rápido: um garoto que escreveu dizendo que sofria e não sabia que tinha uma doença até então. Para mim esse é o maior prêmio que um jornalista pode receber.
É só clicar no PDF para conhecer o drama de quem sofre de automutilação.
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Tags: automutilação, cutting, self harm
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FUNDO DO POÇO
17 04 2009
Enquanto contava sua história, as mãos de N.P., de 29 anos, tremiam. Nos momentos mais difíceis, contados de dentro de uma clínica de reabilitação para mulheres alcoólatras no interior de São Paulo, seus olhos enchiam de água e a garganta engolia o passado em seco. “Nunca bebi antes da minha separação”, diz ao se sentar no banco de madeira, no jardim da clínica. “Me casei com 23 anos e me separei aos 25, com um filho de 7 meses. Foi aí que tudo começou”. Para tentar fugir da depressão e da angústia do fim do casamento, N.P. começou a beber sozinha, em casa, isolada de seus amigos e parentes. “Larguei meu filho com meus pais, sai do emprego, tranquei a faculdade de direito”, conta. “Eu comprava um pacote de cerveja e tomava de uma vez. Aí comecei a ficar inchada, feia, tinha vergonha da família e dos amigos, comecei a me isolar cada vez mais”. N.P. chegou a ser internada duas vezes com depressão, o mesmo número de tentativas de suicídio. “Sorte que fui encontrada rapidamente”, diz. Ela está na terceira internação, mas está feliz. “Faz 3 meses que estou limpa. O que quero agora, mais do que tudo, é voltar a morar com meus pais e, principalmente, ficar com o meu filho (hoje com 5 anos)”.
Enquanto você lê esta reportagem, centenas de mulheres estão bebendo além da conta, assim como N.P. fazia, e nem todas terão um final feliz. Segundo dados do Ministério da Saúde, quase 16 mil mulheres morreram por uso abusivo de álcool no País entre 2000 e 2006 – número que tem aumentado a cada ano. Hoje, mulheres e homens bebem a mesma quantidade em “binge”, termo usado quando a quantidade de álcool ingerida aumenta os riscos de acidentes, dependência e agravamento de doenças. O perigo está no fato de que além de sofrer mais discriminação, correr mais riscos de doenças e de colocar em risco a vulnerabilidade sexual, elas metabolizam o álcool de forma diferente. Segundo o National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism (Instituto Nacional para o Abuso do Álcool e Alcoolismo), dos Estados Unidos, o organismo feminino absorve 30% a mais de álcool do que o masculino, porque as mulheres têm mais gordura e menos água no corpo. Além disso, eles possuem em quantidade duas vezes maior que elas a enzima desidrogenase, responsável pela destruição do álcool, o que ajuda a preservar o fígado.
Por ter menos enzimas para metabolizar o álcool lançado na corrente sanguínea, a mulher embriaga-se mais que o homem, ingerindo a mesma quantidade de bebida. De acordo com um estudo do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), em 2001, havia uma mulher alcoólatra para cada dois ou três homens dependentes nos 107 maiores municípios do País.
Mas por que elas estão bebendo tanto? Segundo a psiquiatra Mônica Zilberman, especialista em saúde mental da mulher, por vários fatores, separados por faixas de idade (veja perfil pág. XX). “A entrada da mulher no mercado de trabalho facilitou o acesso às bebidas alcoólicas. Além disso, a pressão é tão grande (dupla jornada, filhos, pressão pelo corpo ideal…) que o álcool acaba sendo uma forma de automedicação de sentimentos negativos, como baixa autoestima, ansiedade, depressão”, explica.
Monica frisa também que as meninas estão começando a beber cada vez mais, mais cedo e em maior quantidade, o que pode virar alcoolismo no caso das que tem pré-disposição. E um novo transtorno começa a se desenhar entre as mais jovens: a drunkorexia, anorexia associada ao excesso de bebida alcoólica utilizada com anfetaminas para emagrecer. Mas o maior número de mulheres alcoólatras ainda está entre as que, depois de anos cuidando da família, se descobrem solitárias, com os filhos fora de casa, viúvas, separadas ou sem a afetividade do parceiro. “É uma forma de lidar com a perda do papel social”, explica Mônica. “Esses casos são os mais difíceis de serem detectados e normalmente as mulheres chegam ao fundo do poço”, completa Cristina Queiroz Lacerda, coordenadora das alas masculina e feminina da Clínica Viva, para alcoólatras e dependentes químicos em geral, localizada em São Paulo.
Foi o que aconteceu com E.S. de 61 anos, hoje internada na mesma clínica que está N.P. “Minha casa vivia cheia. Há 10 anos, com a morte repentina do meu marido, comecei a ter pânico de sair de casa. Aí meus filhos foram para a faculdade, começaram a dirigir e ficaram independentes. Me vi completamente sozinha e comecei a beber”, conta. “Primeiro bebia em eventos, com os amigos no clube. Depois, comecei beber sozinha em casa e guardava as garrafas vazias dentro de panelas, enroladas em toalhas. Meus filhos encontravam sempre”, lembra. Ela resolveu se tratar depois que o filho saiu de casa, alegando não aguentar mais aquela situação. “Eles procuravam psicólogas, tratamentos e eu sempre inventava uma desculpa. Até que meu filho me pegou caída no chão da cozinha desmaiada. Foi a gota d’água”.
Cristina explica que, diferente dos homens, 95% das mulheres bebem por depressão, bipolaridade ou outros transtornos associados e que, geralmente, utilizam antidepressivos, calmantes ou anfetaminas, o que piora muito a situação. “As mulheres sentem muita vergonha de assumir e procurar tratamento. Isso explica porque a procura por tratamento, mesmo de mulheres com nível educacional e socioeconômico elevado, é tão grande no serviço público, onde elas se sentem mais protegidas do julgamento alheio, já que muitas vezes os familiares nem sabem do tratamento, o que seria mais difícil se fosse em um consultório particular”, comenta Mônica.
Dados da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo comprovam a teoria. Entre 2004 e 2006, cresceu 78% o número de mulheres alcoólatras atendidas pelos Centros de Atenção Psicossocial, mantidos pela Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, e onde, anualmente, cerca de 3 mil mulheres procuram ajuda para deixar o vício do álcool.
Mas se a dependência entre o público feminino é devastadora, a cura é mais rápida e eficiente. Segundo a tese de doutorado da coordenadora do Programa de Atenção à Mulher Dependente Química (Promud), Patrícia Hochgraf, a mulher responde muito melhor a tratamentos específicos. A pesquisa indica que com um tratamento exclusivamente feminino, 80% das mulheres continuam o procedimento após 6 meses do início e 50% após o período de 1 ano. Já nos tratamentos convencionais, mistos, a porcentagem cai para 15% após 1 ano. “O papel da família é convencê-las de que essa é uma doença como outra qualquer, da qual não devem se envergonhar”, diz Mônica. Reconhecer que está doente e não ter vergonha de pedir ajuda estão entre os primeiros passos para a cura.
*matéria na íntegra no geral-ed8882. Vale a pena baixar, tem bem mais informação…
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Um ano sem o mestre.
25 03 2009
Ano passado a essa hora, eu estava no velório do meu mestre querido, amigo, editor conselheiro Sérgio de Souza. Me lembro do gelo no estômago quando recebi a ligação do Thiago as sete da manhã. Já sabia do que se tratava. O mestre havia nos deixado.
O cara que ensinou a mim e mais uns tantos privilegiados que passaram pela Caros Amigos o jornalismo de verdade, a importância do caráter, de ser humilde e mais uma porção de coisas que não se traduz literalmente para as palavras. Apenas para a forma com que as apuramos, cuidamos delas e as colocamos no papel.
Dia desses sonhei com ele, numa mesa de bar, tomando uma cerveja ( e eu nem bebo) xingu (que ele gostava) e falando da vida. Eu contava os problemas e ele ria daquele jeito “ah, se você soubesse que esses problemas são pequenos na verdade” com a sabedoria do tempo vivido que ele ria para nós.
Serjão, aquilo sim era exemplo de redação. Apesar de você negar sempre, a cada estudante que entrava na casinha amarela com os olhos brilhando.
Obrigada, sempre.
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Humilhadas
3 03 2009
Denúncias contra Roger Abdelmassih, médico famoso mundialmente, trouxeram à tona um problema velado no País: crimes sexuais cometidos nos consultórios. Ainda constrangidas, vítimas de outros tantos profissionais relatam os abusos que sofreram
Sabrina* ainda era uma adolescente quando entrou, pela primeira vez, sozinha e cheia de preocupações, no consultório do ginecologista. Durante a conversa inicial, o médico fez perguntas muito íntimas. “Ele pediu para que eu tirasse a roupa e me deitasse na maca. Ele colocou o dedo em mim, como se fosse fazer exame de toque e ficou colocando e tirando. Aí, ele disse: ‘você sente alguma coisa assim?’ Depois, continuou com o dedo dentro de mim, começou a me tocar com a outra mão e disse: ‘E agora, está melhor?’ Aí eu me afastei, olhei meio assustada, levantei e vesti a roupa”, conta. “Saí de lá muito confusa, fiquei com nojo, abalada, mas não sabia se aquilo era certo ou errado. Depois apaguei da memória. Mas sei que isso me causou marcas, porque, desde então, nunca mais agendei uma consulta com ginecologista homem. E mesmo agora, grávida, eu fiz questão de uma obstetra mulher”, diz.
O depoimento de Sabrina ilustra uma monstruosidade que ganhou destaque nas últimas semanas: os crimes sexuais dentro do consultório médico. O que trouxe o assunto para as páginas dos jornais e revistas são as mais de 60 denúncias contra o médico Roger Abdelmassih, conceituado especialistas em fertilização do Brasil. As acusações ganharam repercussão nacional por terem atingido uma das clínicas de reprodução humana mais conhecidas do País, por onde já passaram ricos e famosos.
Mas, longe dos holofotes, mulheres comuns vêm sofrendo esse drama em silêncio. É o que mostra o estudo do pneumologista Julio Cezar Meirelles Gomes, que analisou mais de 400 queixas de crimes sexuais registrados nos conselhos de medicina do País, entre 1997 e 2001. “Os médicos são muito corporativistas. Dificilmente condenam um colega. Também pesa o fato de o abuso não deixar provas. É a palavra do médico contra a da paciente”, diz.
Quando a denúncia chega ao Conselho Regional de Medicina (CRM), é aberta uma sindicância e os “fatos” são analisados. Se forem considerados procedentes, o médico pode sofrer até cinco tipos de penalidade, que vão desde uma simples advertência até a cassação do registro. Somente nessa última opção é que o caso chega ao Conselho Federal de Medicina (CFM), onde será julgado mais uma vez, baseado só na convicção dos conselheiros. “Geralmente, quando o profissional comete esse tipo de assédio uma vez, comete a segunda e a terceira. E a reincidência acaba provando a culpa”, explica o corregedor Pedro Pablo Chacel. Contudo, entre 2002 e 2008, somente 11 médicos tiveram o registro cassado pelo CFM por assédio.
Impunidade
No estudo de Gomes, a impunidade salta aos olhos. Em apenas 4,2% dos casos houve condenação e em 5,2% absolvição. Os outros foram arquivados (18,6%), estavam em tramitação na época do estudo (15,9%), ou foram classificados como indeterminados (57,1%). “Eu comecei a pesquisa justamente porque vi que o número de denúncias de assédio registradas crescia. E hoje, esse número tem aumentado ainda mais. Estou assustado”, afirma Gomes, que continua debruçado sobre o assunto e pretende divulgar os novos números, ainda mais chocantes, em breve.
Para a psicóloga Sonia Rovinski, a maioria das mulheres não denuncia o agressor por se sentir culpada e humilhada. “Normalmente, sob ameaça, a mulher fica sem reação e, depois, vem a culpa por não ter agido na hora, como se a ‘errada’ naquilo tudo fosse ela. Sente medo da reação do marido, da sociedade e da Justiça caso torne o fato público.” Foi o caso de Samanta*, que tinha 16 anos quando entrou no consultório do ortopedista para corrigir um problema de coluna e saiu agredida, humilhada e coagida. O médico, que não deixou marcas aparentes ou testemunhas do abuso, ainda lhe ameaçou, dizendo que ninguém acreditaria numa garota pobre “qualquer” como ela (veja box).
Silêncio
A grande maioria, porém, sofre calada. Júlia*, que é profissional da área de saúde, foi ao ortopedista do grupo médico em que trabalhava por sentir muitas dores lombares causadas por lordose e escoliose. “Estava com 27 anos, casada, com dois filhos. Ao ser chamada pelo médico, identifiquei-me como colega de empresa. O exame foi demorado. Deitei, tirei uma parte da roupa, andei para lá e para cá. Ele apalpou minha coluna e comecei a ficar incomodada com a demora do exame. Ele chamou um colega, me apresentou, eu disse que tinha vindo examinar a coluna e me vesti. Uma paciente, que seria a última, reclamou da demora e ele informou pelo interfone que não estava com a ficha dela na sala. A mulher brigou lá fora, e vi que o médico escondeu a ficha. A gerente entrou no consultório, pediu para verificar se a ficha estava na sala, mas não a encontrou. O médico disse que, então, não atenderia a mulher histérica. Eu estava constrangida, aguardando o diagnóstico, quando ele pediu para fazer outro exame, e me mandou andar novamente para lá e para cá. Disse que havia esquecido tudo sobre mim com aquele entra e sai, mandou eu me abaixar, tentando colocar as mãos no chão, de costas para ele. Então, me agarrou pelo quadril, me puxando contra ele. Sai correndo, mas nunca dei queixa, para evitar o constrangimento”, lembra.
Particular
Outro dado interessante do estudo de Julio Cezar Meirelles Gomes é que os crimes sexuais acontecem geralmente em consultórios particulares. “No Sistema Único de Saúde (SUS) a recomendação é para que haja sempre uma enfermeira ou acompanhante na sala. Já nos consultórios particulares, ficam só médico e paciente”, explica ele. Mas como toda regra tem exceção, Luana* não fez parte dessa estatística. “Fui ao cardiologista de um posto de saúde, para uma consulta de rotina. Quando cheguei, o médico, um senhor idoso, começou a passar a mão e o estetoscópio por baixo da minha blusa. Já achei aquilo estranho. Normalmente, o médico pede para tirar a blusa, encosta o estetoscópio, escuta e pronto. Então, ele me pediu para ficar de calcinha e tentou enfiar a mão por dentro. Eu gritei: ‘Aí não, né?’ E me vesti. Ele começou a tremer e a suar, dizendo que precisava checar uma veia que ficava na virilha. Saí da sala e disse para a recepcionista que não queria mais passar em consulta com ele. Ela me perguntou se tinha acontecido alguma coisa e se eu queria denunciar, mas disse que não. Achei melhor deixar para lá.”
Para a advogada Rúbia Abs Cruz, coordenadora da organização não-governamental (ONG) Themis, que presta assessoria jurídica a mulheres vítimas de violência, a omissão pode contribuir para que o agressor faça novas vítimas. “Realmente, não é fácil prestar depoimento em uma delegacia de polícia, entrar em um processo judiciário, ser apontada pela sociedade. Mas se as mulheres continuarem não denunciando, por medo ou vergonha, os abusadores vão continuar agindo dessa forma e fazendo novas vítimas. Se nada for feito, tudo ficará igual”, finaliza.
* A identidade foi preservada com nomes falsos a pedido das entrevistadas
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Nascidas para morrer
30 01 2009
A cada mil crianças nascidas no Brasil, 23 morrem antes de completar 1 ano. O índice assustador faz parte do relatório do Fundo de População da Organização das Nações Unidas (ONU), que chamou a atenção por deixar o País entre as piores estatísticas de mortalidade infantil da América Latina, na frente apenas da Bolívia (45 mortes a cada mil) e do Paraguai (32 mortes). Em 2007, o Brasil perdeu mais de 35 mil bebês por causas que poderiam ser evitadas, como desnutrição, diarréia por falta de saneamento básico, falta de vacinas, infecções respiratórias e má qualidade de atendimento no serviço de saúde.
Gabriela*, de 38 anos, faz parte desse levantamento. Mas a dor de ter perdido o bebê não entra em cálculo algum. “Eu tenho um filho de 13 anos e não pensava em ter mais filhos. Mas meu menino começou a solicitar um irmãozinho.
Tive uma gravidez muito tumultuada”, lembra. Ela conta que 5 dias antes de ir para o hospital esteve no médico e disse que achava que estava acontecendo algo de errado, mas ele não deu importância à reclamação. “No dia 20 de agosto fui internada com dois dedos de dilatação, e fiquei lá até que a Eduarda nascesse no dia 27 de agosto de 2007. Ela parecia perfeita, com 1,590 quilos e 49 centímetros, sem nenhum problema aparente. Dois dias depois, me informaram que tinha uma infecção e que estava sendo tratada. No dia 1º de setembro ficamos sabendo que ela teve duas paradas cardíacas e faleceu.
A causa da morte foi septicemia”, diz. A septicemia é uma infecção no sangue causada por bactérias comuns na flora intestinal que pode provocar a morte de bebês nos primeiros dias de vida. “Agora, estou grávida novamente. Ainda me sinto muito insegura por causa do que passei”, diz Gabriela.
Mortes podem ser evitadas
Para o infectologista Eugenio Scannavino Netto – que conseguiu diminuir em 40% o índice da mortalidade infantil em Santarém, no Pará (veja entrevista na página 16), com medidas simples de orientação e kits de saneamento de R$ 5 –, o que falta é investir em prevenção. “Gasta-se muito com ações curativas, os hospitais ficam entupidos, quando muitas das causas que matam crianças poderiam ser evitadas em casa. Hoje, é inadmissível que um bebê morra de diarreia por falta de água tratada e de informação”.
Inadmissível, sim, porém mais real do que nunca. Segundo o relatório Situação Mundial da Infância, lançado anualmente pela Unicef, a cada dia, em média, mais de 26 mil crianças menores de 5 anos morrem em todas as partes do mundo, 30% delas durante o primeiro mês de vida, geralmente em casa e sem acesso a serviços de saúde essenciais e recursos básicos que poderiam salvá-las. “Algumas crianças sucumbem a infecções respiratórias ou diarreicas que, atualmente, já não constituem ameaças nos países industrializados. Ou, então, morrem devido a doenças da primeira infância, como o sarampo, que podem ser facilmente evitadas por meio de vacinas”, diz o documento.
O relatório aponta também que 50% das mortes nessa faixa etária são causadas pela desnutrição. Gravidez precoce, falta de higiene e o analfabetismo das mães também aparecem na lista dos principais fatores.
Mas, apesar do cenário assustador, Cristina Albuquerque, coordenadora do Programa de Sobrevivência e Desenvolvimento da Unicef, diz que o Brasil deve alcançar a meta do milênio, estipulada pela ONU, que determina a redução da mortalidade infantil em dois terços até 2015. “Nos últimos 10 anos, o País reduziu 50%, em média, as taxas da mortalidade na infância.
Vamos atingir o objetivo do milênio. O que nos preocupa agora não é a média nacional, mas os contrastes entre regiões, raças e etnias. Hoje, as crianças afro-descendentes têm o dobro de chances de morrer do que as crianças brancas. E as indígenas têm 100% a mais de chances. O desafio não é que todas as crianças, mas que cada criança tenha a garantia de vida e os demais direitos assegurados”, explica Cristina.
O bom exemplo
“Faz muitos anos que a gente não vê um recém-nascido morrer na comunidade. O índice aqui agora é zero”, comemora Ana Silva, “nascida e criada na comunidade quilombola de Alto Alegre, com muito orgulho”, como costuma dizer. Há 5 anos, Ana se juntou com outras mulheres do Quilombo, que fica no município Horizonte, no Ceará, para conseguir atendimento médico de melhor qualidade, informação para as gestantes e vacinas. O que era um trabalho voluntário ganhou apoio da Unicef e, há 3 meses, virou um projeto oficial, o Raiz do Quilombo, com o selo de qualidade da ONU. Para ela, o que mata as crianças é mesmo a falta de informação. “Há pouco tempo tivemos uma mãe que estava amamentando o filho de forma incorreta e a criança estava começando a ficar desnutrida. Levamos mãe e a criança ao médico, orientamos, e hoje o bebê alcançou o peso, está ótimo”, se orgulha.
Para Cristina Albuquerque, o desmame também é um fator importante na desnutrição infantil. “O Brasil exporta tecnologia de bancos de leite humano, mas apenas 45% das brasileiras dão o peito para os bebês até 3 meses”, diz. Para ela, o ideal seria que o sistema de saúde chegasse 9 meses antes do parto e assegurasse a saúde da mãe e do bebê até pelo menos 9 meses depois. “Quando isso acontecer, certamente veremos uma queda substancial tanto da mortalidade materna (veja texto abaixo) quanto da mortalidade
infantil”, conclui.
Enquanto isso não acontece, o descaso e a falta de informação continuam tirando os bebês dos braços das mães. Se não houver uma redução drástica desses números, estima-se que em 2015, 4,3 milhões de crianças morrerão no mundo todo antes de completar 5 anos de idade.
*Trecho da matéria
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PEDOFILIA EM XEQUE
9 01 2009* Há quem acredite que pedofilia é doença. “É como a cleptomania” compara Thiago Tavares, presidente da Safernet Brasil, que recebe e processa denúncias de pedofilia na rede. “É um conceito clínico. No caso da cleptomania, o furto é o crime. Da mesma forma o crime não é o desejo sexual por crianças, colocar isso em prática sim”. Mas quem é o pedófilo? Segundo Sander Fridman, psicanalista, e psiquiatra forense, não há um estereótipo. Geralmente é alguém que sofreu bloqueios em sua sexualidade e por algum motivo deixou o desejo por crianças e adolescentes como a única opção: “É alguém que se autoriza a isso. E às vezes o grande transtorno não está ali, mas em outras áreas bloqueadas. Ela guarda uma memória de prazer e quer repetir para sempre. Por isso que mesmo depois de punidos e presos, os pedófilos podem voltar a ter esse comportamento. É uma coisa muito dramática para a pessoa, como todas as perversões” explica. A psiquiatria define que o transtorno geralmente começa na adolescência, embora alguns indivíduos com Pedofilia relatem não terem sentido atração por crianças até a meia-idade, que a freqüência do comportamento pedófilo costuma flutuar de acordo com o estresse psicossocial e que o curso em geral é crônico, especialmente nos indivíduos atraídos por meninos. Segundo o juiz de Direito Demócrito Reinaldo Filho, em entrevista ao blog Psiquê e Sexualidade, “o pedófilo geralmente é um homem branco, profissional, de classe média alta, sem antecedentes criminais, na faixa de 25 a 45 anos, algumas vezes de aparência bastante amigável”, ou seja, um homem comum e que está muitas vezes mais perto do que se imagina. A Psicóloga Daniela Pedroso, que coordena o atendimento a mulheres e crianças vítimas de violência sexual do hospital Perola Byington, em São Paulo, diz que o agressor é geralmente alguém próximo como o pai ou padrasto, o que dificulta a identificação até mesmo por parte das crianças “elas não sabem nomear isso como um abuso. O agressor dificilmente vai estuprar. Ele vai fazer outras coisas. E essa pessoa deveria ser alguém que fornece coisas boas e positivas pra ela. Aí um dia começa a fazer um “carinho” diferente, e geralmente existe uma troca, ele dá um doce, dá uma bala, ou ameaça e faz chantagens”. O serviço atende a cerca de 14 casos por dia – 43% deles de crianças de 0 a 11 anos – e disponibiliza desde remédios para a prevenção e tratamento de DST´s, apoio psicológico para a criança e familiares, até a interrupção da gravidez, se for a escolha da vítima. “As pessoas esquecem que além do dano psicológico, as crianças podem pegar DST´s e, a partir de certa idade, engravidar. A gente atendeu três casos essa semana de meninas de 11, 12 e 13 anos que engravidaram ao ser estupradas” diz Daniela.
Mariana* publicitária de 28 anos viveu o drama na pele. Quando tinha oito anos, foi abusada por um professor, mas só entendeu o que aconteceu mais de 10 anos depois. “Um dia eu estava no ônibus voltando da faculdade e a cena veio a minha mente de repente. Nunca tinha pensado nisso, acho que não entendi na época. Só me lembro de me sentir mal perto dele e parar as aulas de repente. Quando me lembrei, já com vinte anos, chorei por dias seguidos” conta. “É normal perceber depois” diz Daniela Pedroso. “Mas se houver um tratamento psicológico, a vítima de abuso conseguirá viver com isso de forma mais tranqüila”. Foi o caso da nadadora Joanna Maranhão que, após anos de terapia, resolveu contar à imprensa que sofreu abuso sexual de seu treinador, Eugênio Miranda quando tinha nove anos de idade. “Quando a gente é criança, não sabe o que é, não sabe porque está acontecendo. Eu sabia que era algo errado e muito sério, aquilo me machucava, mas aos 9 anos eu não pensava ‘Estou sendo molestada, e agora , o que faço?’ disse em entrevista exclusiva à Folha Universal (veja box na página *). A mãe de Joana, Teresinha Maranhão, está sendo processada por Eugênio, que nega as acusações.
Indignação
Nas últimas semanas, vários casos de violência sexual chocaram o país – só em Curitiba quatro meninas foram abusadas e mortas nos últimos dias – como o da menina Raquel Genofre, de nove anos, encontrada dentro de uma mala em rodoviária de Curitiba com indícios de violência sexual, e o do americano Graig, preso no Rio de Janeiro com 75 fitas com cenas de sexo com meninos. Mas os crimes sexuais ainda são os mais subnotificados no mundo. Estima-se que apenas 10 % dos casos de abusos envolvendo crianças sejam denunciados, entretanto os números da pedofilia no Brasil são de arrepiar. Uma pesquisa, elaborada pela organização não-governamental SaferNet, revelou que entre 2006 e 2007 houve o registro de 50 mil páginas, criadas por brasileiros, para a prática de crimes contra os direitos humanos. Destas, 20 mil divulgando a pornografia infantil. Os dados foram apresentados no final do ano passado, durante o 2º Fórum de Governança da Internet, no Rio de Janeiro. Este ano o número aumentou ainda mais: “recebemos até agora mais um milhão e meio de denúncias sobre mais de 70 mil páginas diferentes” diz Thiago, que também integra a CPI da Pedofilia, que já criou uma lei que fecha o cerco aos pedófilos (veja box na página *) e entra na brecha da lei atual, que só pune “Apresentar, produzir, vender, fornecer, divulgar ou publicar, por qualquer meio de comunicação, inclusive rede mundial de computadores ou internet, fotografias ou imagens com pornografia ou cenas de sexo explícito envolvendo criança ou adolescente” com dois a seis anos de reclusão e multa ou, quando se enquadra juridicamente nos crimes de estupro e atentado violento ao pudor, agravados pela presunção de violência, com pena de seis a dez anos de reclusão. “Mas o que acontece quando esse cara sair?” questiona Fridman. “Trata-se a pedofilia apenas como assunto de polícia, mas ele é doente! Quando sair, vai fazer de novo”. Ele, como muitos psiquiatras e promotores, defende a castração química como uma solução eficaz. A castração química é adotada na Alemanha, Estados Unidos e Inglaterra e prevê a aplicação periódica de um hormônio para inibir a libido. Estudos recentes mostram que a adoção do método diminuiu a reincidência entre pedófilos de 75% para 2%, mas a medida ainda gera polêmica e divide opiniões dos especialistas. Em um hospital universitário no ABC, em São Paulo, a medida é adotada com voluntários, mas o psiquiatra que criou o serviço, Danilo Baltieri, se nega a falar com a imprensa por ter sido massacrado como “Hitler” e a medida como “um retrocesso aos direitos humanos”. “a mídia não entendeu o trabalho dele, que é maravilhoso, e distorceu completamente” disse ao telefone sua secretária.
O combate também aumentou
Se de um lado a barbárie aumentou, de outro a preocupação das autoridades, mídia e da própria sociedade também. A CPI é prova disso e a nova lei mais rigorosa – se for sancionada pelo presidente Lula – é símbolo disso. A Polícia Federal, em conjunto com o ministério público têm feito um trabalho incansável de investigação – só este ano foram duas operações, Carrossel I e II que identificou mais de duzentos pedófilos em cerca de 70 países – e organizações como a Safernet facilitou o processo da denúncia, que hoje é feita de forma anônima em apenas 3 cliques no computador. Ainda na semana passada, a Secretaria de Segurança Pública do Paraná ganhou um banco de DNA que irá catalogar os suspeitos quando detidos. Se a pessoa voltar a cometer um crime e deixar vestígios, bastará comparar com o material genético arquivado.
Para o dr. Fridman ainda é pouco: “É preciso estudar a mente do pedófilo. É preciso que pesquisas sejam feitas aqui, para traçar o melhor tratamento e elaborar melhor a pena, com acompanhamento posterior, para que ele não volte a atacar”.
*texto reduzido
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Tags: abuso, crime, doença, pedofilia
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